Mística:
O ROSTO DA NOSSA ESCOLA DE CATEQUESE

*Por Pe Geraldo Raimundo Pereira
Revendo
nossa história... Olhando os caminhos percorridos
pela evangelização, percebemos variadas formas de anúncio da Boa Nova. Nesta
caminhada a Catequese sempre esteve presente na educação da fé. Os tempos
fizeram a catequese marcar mudanças e neste contexto podemos observar quatro
fases com características próprias.
1º
CATEQUESE - INICIAÇÃO À FÉ E À VIDA COMUNITÁRIA (tempo dos apóstolos)
Foi o
período do anúncio do evangelho feito pelos apóstolos. Despertava para o
seguimento de Jesus Cristo, como processo de conversão; vivência fraterna na
comunidade; celebração litúrgica centrada na partilha da Palavra e do Pão e no
cuidado com a vida de todos os necessitados. Era uma catequese que conjugava a
vida com a experiência de fé.
2º
CATEQUESE - IMERSÃO NA CRISTANDADE (mais
ou menos do século V ao séc. XVI)
Toda a
pessoa que nascia nesta sociedade já mergulhava na vida cristã. Não existia
outra prática de fé reconhecida, senão a religião cristão. Aquilo tudo
contribuía para a vivência religiosa: costumes, arte, música, devoções... A
pergunta principal era: O que devo fazer para alcançar a vida eterna?
* A fé
estava ligada aos deveres cristãos;
* vivência
cristã individualista e pouco comunitária;
* a
catequese deixa de ser voltada à Palavra de Deus e perde sua força missionária;
* a vida
cotidiana se mistura com a fé, porém sem muito compromisso transformador;
* o
Batismo de crianças se generaliza e a catequese de adultos deixa de existir;
* a
família, a pregação, a oração... eram responsáveis pela catequese.
3º
CATEQUESE POR INSTRUÇÃO (A partir do séc. XVI até
o Vaticano II).
O
cristianismo desse tempo se tornou enfraquecido, frente a uma vivência de fé
sobre atos secundários: devoções, confrarias, procissões e sustentada por uma
ignorância religiosa. Foi, também, um tempo de grandes acontecimentos como: a
Reforma Protestante, Concílio de Trento, descoberta da imprensa, ocupação das
terras latino-americanas, difusão das escolas, mudanças no modo de pensar,...
Para fazer
frente às exigências desse tempo, a catequese utilizava-se do catecismo, que se
tornou o principal instrumento da difusão da fé. A catequese passou a chamar-se
de doutrina. Assim a catequese sai da família e da igreja para ir ao meio
escolar, como ensino obrigatório.
1. O
melhor cristão era aquele que mais sabia sobre religião e não aquele que se
comprometia com a vida e a vivência da fé.
2. A
atenção era dada as crianças e não aos adultos.
3. O
importante era a fidelidade às fórmulas valorizando a exatidão e a clareza do
ensino doutrinal.
4. O
catecismo tornou-se um referencial de segurança sobre as questões de fé.
4º
CATEQUESE - EDUCAÇÃO PARA A FÉ E A VIDA (A
partir do Vaticano II até os nossos dias)
Frente a
uma Catequese racional, fria, abstrata, centrada nas fórmulas, era preciso
voltar às fontes e apresenta-la com um novo rosto adequado para os nossos
tempos. Com o Vaticano II, a Igreja abre suas portas para o novo e renova sua
presença no mundo como sinal do Reino.
Em 1983,
no Brasil, a catequese ganha um grande impulso com o documento da CNBB n.º 26
“Catequese Renovada”, Orientações e conteúdos. Nele se define a prática
catequética: “A catequese é um processo de educação comunitária, permanente,
progressiva, ordenada, orgânica e sistemática da Fé”.
Sua
finalidade é a maturidade da fé, num compromisso pessoal e comunitário de
libertação integral, que deve acontecer já aqui e culminar no Reino definitivo
(CR 318). Suas características principais:
· Leva em
consideração a pessoa e a comunidade;
· A Bíblia
é o livro fonte;
· O adulto
é o principal destinatário;
·
Centralizada no segmento de Jesus Cristo;
·
Privilegia a opção pelos pobres.
A
catequese é elemento fundamental e constitutivo da Igreja e, portanto, para
toda a Igreja e para todos (DGC 218).
O EUNUCO
ETÍOPE (At 8,26-40) E A NOSSA ESCOLA DE CATEQUESE
O eunuco
etíope é um homem cujo nome nós não sabemos. Sua conversão abrange quinze
versos da Escritura e nunca mais é mencionado. Contudo, por causa dos detalhes
revelados sobre a sua salvação, é um homem muito importante. Um eunuco era um
escravo, preparado desde a infância ou juventude para ser um servo por toda sua
vida. Este eunuco era o tesoureiro da Etiópia, uma posição de prestígio, sob o
reinado da rainha Candace. Era certamente um homem bem educado e também muito
religioso, pois viajou centenas de milhas através de montanhas e desertos para
adorar em Jerusalém. Apesar de ter adorado na mais solene cerimônia judaica do
ano, seu coração estava vazio e destituído de paz, sentando-se em sua
carruagem, procurou as Escrituras em busca de um raio de esperança para sua
pobre alma perdida.
Claro que
foi Deus quem fez o sentir seu coração vazio e lhe mostrou que tinha uma
necessidade profunda. Sem dúvida o eunuco sentiu sua profunda de encontrar-se
como pessoa. O episódio do encontro de Filipe com o eunuco etíope, narrado
pelos Atos dos Apóstolos, começa mostrando um primeiro passo importante que é a
necessidade de “conhecer” a Sagrada Escritura e “interpretar a Palavra”.
Percebe-se claramente no texto que o eunuco quis conhecer a Sagrada Escritura e
Filipe foi chamado a interpretá-la.
Quando
Felipe foi até o eunuco, encontrou-o lendo o livro de Isaías, capítulo 53.
Perguntou-lhe se entendia e o eunuco admitiu que precisava de alguém para
auxiliá-lo em explicar o texto. É isso que é catequizar. Felipe subiu em sua
carruagem e, a partir daquele capítulo mesmo, anunciou-lhe Jesus.
A sagrada
Escritura é o livro por excelência do catequista, portanto se faz necessário
que o catequista descubra a revelação de Deus. Neste encontro do eunuco com
Felipe, nasce o rosto de nossa escola. Ela começa a surgir como caminho para o
conhecimento.
Conhecer e
interpretar a Palavra de Deus, buscar os ensinamentos da Igreja, a pessoa
humana e suas dimensões, isto é, descobrir-se como pessoa capaz do ser, do
saber e do saber-fazer.
O episódio
do encontro de Filipe com o eunuco etíope, estabelece, a partir do anuncio de
Jesus, a comunhão com Ele, a partir da oração com a Palavra.
Narra-se:
Então Filipe começou a falar e, partindo dessa passagem da Escritura,
anunciou-lhe Jesus. Eles prosseguiram o caminho e chegaram a um lugar onde
havia água. Então o eunuco disse a Filipe: ‘Aqui temos água. Que impede que eu
seja batizado? ’. Os dois desceram para a água e Filipe batizou o eunuco (At,
8,35-38).
O texto
apresenta claramente que graças à interpretação da Sagrada Escritura feita por
Filipe, a Palavra leva o etíope à sua adesão de fé em Jesus Cristo; conhece e
interpreta o texto de tal modo que o guia ao encontro pessoal com Jesus Cristo,
enquanto Palavra salvadora de Deus; celebra a fé, recebendo o Batismo, tornando
possível a alegria da salvação.
Seguindo
os passos da Animação Bíblica da Pastoral que “é ajudar a perceber e vivenciar
a revelação do mistério de Deus e do homem (Palavra de Deus), presente na
Sagrada Escritura, mediante a comunhão e o diálogo permanente com o próprio
Jesus Cristo, a revelação divina em plenitude”, nossa escola vai ganhando agora
um corpo.
“Na base
de toda a espiritualidade cristã autêntica e viva, está a Palavra de Deus
anunciada, acolhida, celebrada e meditada na Igreja” (VD 121).
A escola
de catequese do nosso regional precisa de uma marca, um rosto, assim como
acontece com organizações bastantes serias. Veja bem, o que não tem rosto, não
tem identidade, não tem fisionomia. Não é mania nem fanatismo, é um recurso bem
humano de dar rosto ao que fazemos. Nossa escola precisa marcar, fincar-se no
chão da historia da catequese, precisa entusiasmar, numa linguagem bem popular,
precisa “causar”. Sabe porque? Ninguém se entusiasma por uma coisa que não tem
rosto, uma fisionomia.
Mística da
escola de catequese não tem muito a ver com sentido espiritualista ou
contemplativo de Deus, de seu mistério, mas no sentido de Espírito que anima o
projeto de vida, pessoal ou grupal. Essa mística determina os objetivos, os
princípios, a metodologia, as relações humanas de nossa escola regional. É ele
que aponta a direção para onde se caminha. É a mística que ajuda a atingir com
segurança o objetivo traçado pela escola.
O que
pretendemos com esta escola? Ser um caminho formativo do discípulo missionário.
O catequista é um discípulo missionário. Olhando para o texto de Felipe e o
eunuco etíope (At 8,26-40), percebemos claramente que Felipe é a figura do
catequista e o eunuco, alguém em busca do encontro com Deus. Felipe anuncia
Jesus, a Palavra de Deus ganha voz em Felipe. É Deus quem fala na nossa voz.
Sabe por que isso acontece? Porque o verdadeiro Catequista tem:
· Na
cabeça a fé no valor da dignidade humana.
· Nos
olhos: A capacidade de enxergar a presença de Deus na realidade.
· Nos
ouvidos: A escuta respeitosa e atenta.
· Na boca:
O sorriso da alegria e da esperança.
· Nas
mãos: A disponibilidade solidária e a partilha generosa.
· Nos pés:
A coragem de desinstalar-se e sair, por fidelidade ao Evangelho.
· No
coração: O amor e o compromisso pela vida, adesão e seguimento a Cristo vivo.
Podemos
dizer que encontramos a nossa mística, o nosso rosto. Temos um texto bíblico
para nos iluminar, um objetivo para ser alcançado e um lema para seguir. Veja
como fica a nossa marca, o nosso rosto:
Tema: Caminho
para o Discipulado Missionário
Lema: Fala
Senhor na nossa voz. (At 8, 26-40).
Vamos
assumir esta mística, ela é a luz que iluminará toda caminhada de formação. A
mística vivida em comunidade desperta entusiasmo e capacidade para superar as
barreiras. Ela une forças, sem anular as pessoas e os projetos pessoais
válidos. A mística deve marcar a escola, os catequistas e os professores.
Vamos
cantar:
a)
Ref.: Aleluia, aleluia, aleluia! Jesus Cristo vai
falar! Aleluia, aleluia! Ide pelo mundo o Evangelho anunciar! Mas como
invocarão aquele em quem não creram, E como podem crer se ainda não
ouviram,
E como
podem ouvir se não houver quem pregue, E como pregarão se não forem
enviados?
b)
Vejam, fui além das fronteiras, espalhei boa-nova: todos filhos de
Deus ! Vida, não se deixe nas beiras, quem quiser maior prova: venha ser um dos
meus!
Ref.: Por
onde formos também nós que brilhe a tua luz! Fala Senhor na nossa voz, em nossa
vida. Nosso caminho então conduz, queremos ser assim! Que o pão da vida nos
revigore no nosso "sim".
Que
o Senhor da vida, realize em nós o milagre da multiplicação de nossos esforços
no serviço da Catequese.
Vamos
concluir este momento com esta oração, fazendo seu um dos símbolos.
Senhor
faça de mim um catequista:
• Agua:
que faz crescer a vida, através de tua Palavra;
• Ponte:
capaz de unir distâncias, separações, desencontros, desafetos, trazendo alegria
no viver.
• Caminho:
que aponta para mais esperança, coragem e confiança diante dos desafios da
sociedade.
• Porta:
que abre passagens para os excluídos encontrarem mais dignidade;
• Luz:
capaz de iluminar as situações humanas, para descobrir nelas o teu rosto;
• Sal: que
possa dar gosto e sabor a todos os chamados da catequese;
• Perfume: capaz de exalar a ternura,
a bondade, a amizade, nos diversos ambientes de convivência;
Minha alma tem sede de Deus e deseja o Deus vivo. (Sl 41,3) - Assim como o povo de Deus no deserto, experimentou a
provação, particularmente da sede. Jesus nos convida a saciarmos com água viva.
Todos nós cristãos
somos chamados a transformar o mundo. Ser luz, ser sinal de vida, de esperança
e apontar para Cristo que salva a todos.
TU ÉS A LUZ,
SENHOR, DO MEU ANDAR, SENHOR, DO MEU LUTAR, SENHOR, FORÇA NO MEU SOFRER. EM
TUAS MÃOS, SENHOR, QUERO VIVER.
A luz é a
Ressurreição de Jesus. Assim deve o catequista que crê em Jesus Cristo e
continua sua missão: ser luz para iluminar e orientar. É preciso, pois, no
mundo urbanizado, retomar a vivência comunitária, característica fundamental da
primeira Igreja. É lá que brilha a nossa luz.
Como catequistas,
uma vez seduzidos por tão grande amor, não podemos ficar parados, quietos.
Somos convidados a carregar nossa cruz e seguir os passos do Mestre. Dizer-se
cristão é assumir como projeto de vida o que Jesus fez e viveu. Configurar-se
com o Mestre não é fácil, é por isso que Ele mesmo nos diz:
“Se alguém quer me
seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24).
Eu sou o caminho, a
verdade e a vida!
Caminhar é ir em
busca de metas, prever um fim, uma chegada. O catequista é alguém que caminha e
ajuda outros a mover-se na construção de um mundo mais humano e cristão.
Se caminhar é
preciso, caminharemos unidos, e nossa voz no deserto fará brotar novas fontes.
E a nova vida na terra será antevista nas festas. É Deus que está entre nós em
esperança solidária.
Bibliografia
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PAPA BENTO
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Terezinha Motta Lima. Este Mundo de Deus: educar para a espiritualidade do
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